Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2006

Fantasmas do passado...

CATS: Acto II, Cena 3 - A Última Batalha de Growltiger, incluindo A Balada de Billy McCaw

                  Rum Tum Tugger, Quaxo, Skimbleshanks e Munkustrap
                         na pele de quatro dos piratas de Growltiger


 

“But the moonlight shone reflected from a thousand bright blue eyes; and closer still and closer the sampans circled round, and yet from all the enemy there was not heard a sound. The foe was armed with toasting forks and cruel carving knives. And the lovers sang their last duet in danger of their lives1

 

…de repente uma baforada de música bem alta dá o mote a Gus para se levantar bruscamente, atirando para trás o seu desmazelado manto, revelando o corpo musculado de Growltiger, um gato listrado alaranjado, preto e branco, a quem lhe falta um olho, escondido por uma pala.

 

Do cimo do palco cai o cenário de um navio ao mesmo tempo que outras partes do navio (o mastro por exemplo), “voam” dos lados. Neste palco, dentro do palco, ao leme do navio surge a tripulação selvagem de Growltiger: interpretada por Munkustrap, Rum Tum Tugger, Quaxo, Skimbleshanks e Alonzo, embonecados com vestimentas à pirata com grande profusão de cores2.



 

A tripulação canta sobre um gato bandido, o gato mais bruto que alguma vez navegou “de Gravesend até Oxford onde satisfazia os seus objectivos diabólicos, regozijando-se do seu título de ‘O Terror do Tamisa’”.


Growltiger tem um ódio terrível por todos os gatos estrangeiros, pois a um gato Siamês se deve a falta de uma das suas orelhas. Mas ele também adora aterrorizar a sua tripulação, o que nos proporciona cenas hilariantes: Quaxo-Pirata parece ser muito assustadiço durante toda a cena e quando Growltiger explode, ele salta para os braços de Rum-Pirata! Quanto a Skimble-Pirata... presenteia-nos com uns sons de tal maneira agudos que nos fazem espantar! Ai que temos voz!

 

Entretanto entra em cena Griddlebone, ou seja, Jellylorum vestida com um fato coberto de penugem branca de avestruz. Rapidamente percebemos que esta “senhora” é a grande paixão de Growltiger. Ela entra em cena cheia de graça... ao tropeçar na sua longa cauda branca e quase cai de cara no chão! Para que possam estar algum tempo a sós, Growltiger escorraça a tripulação do convés dizendo-lhes que é hora de irem dormir.

 

Sem se aperceberem que as suas vidas estão em perigo, Growltiger e Griddlebone, em jeito de corte, cantam um dueto chamado a "Balada de Billy McCaw". Apesar do intuito de Growltiger ser cortejar Griddlebone (a única gata para quem tem... olho), ela parece querer roubar-lhe o espectáculo, já que não gosta, que lhe façam sombra e quer ser ela a estrela.

 

Ao comando de Ghengis3, os outros Jelicais entram em palco trajando máscaras cintilantes, armaduras enfeitadas com lantejoulas e olhos brilhantes e entoando vozes com um sotaque chinês: são os Siameses que avançam rapidamente e cercam o casal que é apanhado desprevenido. Griddlebone prova ser uma mestre em fugas já que rapidamente se escapuliu, mas... Growltiger...

 

... é confrontado com um duelo quando Ghengis entrega uma espada extra que estava escondida atrás do leme. Ambos fazem uma pausa e respiram fundo antes de começarem a lutar. Growltiger consegue levar a melhor e enquanto está ocupado a vangloriar-se, Ghengis põe-se de pé e aponta a espada... hmmm... para as regiões baixas! Growltiger rapidamente recua, mas a ponta de outra espada fica-lhe encostada às costas e o Gato Bandido é finalmente capturado. Forçado a andar na prancha, Growltiger tapou o nariz antes de saltar... E então, “aquele que levou centenas de vítimas até ao abismo, no fim dos seus crimes foi forçado a ir num pé e saltar no outro!”

 

No fim, Ghengis fica a sós no palco, relampejando a sua espada. Ao virar-se, quem ele vê é Gus, que lhe estende a mão, como se tentasse alcançar um sonho... então Ghengis saúda o velho gato e lentamente gira sobre si mesmo até sair do palco enquanto Gus se embrenha novamente na lembrança do seu papel de Firefrorefiddle, o Demónio das Montanhas.


Sentindo-se miserável e cansado, mas ainda acreditando que poderia interpretar
novamente todos aqueles papéis, Gus sai acompanhado pelo resto da tribo, enquanto ecoam as suas palavras: “poderia fazê-lo novamente...”




1 “Mas o luzir do luar reflectiu desde mil olhos azuis e cada vez mais próximo as sampanas cercaram‑os, todavia do inimigo não se ouvia nem um pio. O adversário estava armado de garfos de espeto e cruéis facas de talhar. E os amantes contaram um último dueto em perigo de suas vidas”

2 7 Outubro: esta parte do espectáculo saiu-me como uma surpresa e é capaz de ser uma das cenas das quais me lembro mais e ao mesmo tempo da qual me lembro menos, já que foi algo que me apanhou de surpresa. Sabia que tinha visto o vídeo todo com atenção, por isso esta parte é mesmo um extra em relação ao DVD. Gostei do facto de ver algo completamente novo e principalmente porque achei uma cena com uma vida extrema. Dá para rir, para nos encolhermos um bocado mais e até mesmo para ficarmos com a música no ouvido... a Balada de Billy McCaw é simplesmente ternurenta... sim senhor, de se lhe tirar o chapéu! E os siameses? Aquele Ghengis parece mesmo siamês... boa voz! 100% (pena não poder pôr um vídeo a sério aqui porque esta cena não há em vídeo já que o Sir John Mills era velho de mais –mais de 90 anos– para poder interpretar Growltiger no DVD)

3 Ghengis, o chefe dos Siameses, é interpretado pelo mesmo actor que interpreta Coricopat (Philip Comley), embora eu só me tenha apercebido disso quando vi o espetáculo pela 3ª vez em Bristol (dia 9 de Dezembro) – talvez porque estava mesmo à frente deu para ver mais pormenores... mas mantenho a ideia que tenho desde a primeira vez que vi esta cena: o Ghengis tem uma voz espetacular! E foi uma óptima actuação por parte do actor, numa cena em que envolve imensa dansa acrobática e requer uma óptima coordenação de movimentos...

sonhado por zia às 12:55
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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006

Um gato especial

CATS: Acto II, Cena 2 - Gus o Gato do Teatro

                                 O Velho Gus e Jellylorum


“I’d a voice that would soften the hardest of hearts whether I took the lead or in character parts […] and I say now these kittens they do not get trained as we did in the days when Victoria reigned, they never get drilled in a regular troupe and they think they are smart just to jump through a hoop”[1]

 

No silêncio da noite, toda a atenção concentra-se num gato que se tinha juntado aos Jelicais na cena anterior. Sentado numa lata de tinta, o velho gato olha fixamente para o público. A seu lado, olhando-o com uma ternura incrível, está Jellylorum e é pela voz desta que nos é apresentado um dos candidatos mais prováveis a ascender à camada celestial.

 

 


Trata-se de Aspargus, ou simplesmente Gus, o Gato do Teatro[2], um actor famoso e aclamado no seu tempo e que se sente muito orgulhoso dos seus feitos. Hoje, um felino velhinho de ar triste que sofre de paralisia que lhe faz tremer as patas, vive das suas memórias e passa a maior parte do seu tempo nas traseiras do bar vizinho, relembrando a quem queira ouvir histórias de um tempo em que andava na ribalta.

 

É então que meio trôpego Gus pega nas rédeas e decide contar-nos (com um certo exagero) sobre as suas escapadelas e travessuras, reivindicando que “nada se iguala – pelo que ouço dizer – aquele momento de mistério, em que eu fiz história como Firefrorefiddle, o Demónio das Montanhas.”

 

Gus, conta-nos Jelly, actuou com actores de renome como Irving e Tree[3] e até entrou de rompante numa produção de Shakespeare quando um actor mencionou a necessidade da presença de um gato. Mas Gus, com a sua voz doce, revela-nos que acha que os gatos do teatro de hoje em dia não são tão empenhados quanto os gatos do seu tempo, os tempos mudaram e os gatos também... e então Jelly encoraja a audiência a aplaudir Gus!

 

Ouvir o aclamar da audiência parece ter dado uma nova força a Gus que nos conta mais um acto de coragem da sua parte, incluindo o facto de ter encarnado a personagem de Growltiger... e ainda se sente capaz de o fazer novamente... e a sua voz fica mais forte e alta à medida que as luzes vão baixando...




[1] “Eu tinha uma voz capaz de amaciar o mais duro dos corações, quer fosse em papéis secundários ou principais [...] e digo-te que agora estes gatitos não são treinados como nós éramos quando Victoria reinava, eles nunca ficam muito tempo numa trupe e pensam que são espertos por saltar o aro”

[2] A relação entre estes dois gatos não está bem definida, mas a mim quer-me parecer que Jellylorum é filha de Gus ou então alguém muito chegada a ele...

[3] Sir Henry Irving (1838-1905) foi um dos nomes mais sonantes entre os actores britânicos do século XIX; Sir Herbert Beerbohm Tree era um actor e produtor britânico notável pelas suas dispendiosas produções de Shakespeare (1853-1917)

sonhado por zia às 23:50
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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006

Um dois, esquerda direita, encolhe a barriga e estica o peito!

CATS: Acto I, Cena 8 - Bustopher Jones, o Gato Citadino

              Bustopher Jones está sempre rodeado por outros gatos que muito o respeitam:
                         Alonzo, Gus, Quaxo, Munkustrap, Skimbleshanks e Coricopat

Bustopher Jones is not just skin and bones, in fact he is remarkably fat1


A atmosfera sombria é cortada pelo cumprimento alegre de Bustopher Jones, um gato que não é feito de apenas pele e ossos, na verdade ele é mesmo um “peso pesado”. Veste tal e qual um cavalheiro com um fraque preto impecável, e anda sempre calçado com as suas polainas brancas, a sua imagem de marca.

A meu ver, e não está muito claro, penso que ele não pertence à tribo, mas os Jelicais adoptaram-no como um modelo a ser seguido. E apesar de passar a maior parte do seu tempo a empanturrar-se num dos muitos pubs e clubes que lhe pertencem ele é aos olhos dos toms um gato que merece ser cumprimentado sempre que passa, mas nada se compara ao sentimento de orgulho e garbosidade quando este gato da Rua St. James lhes acena ou os saúda – isto sim é uma grande honra!

Jennyanydots, Jellylorum e Bombalurina cantam sobre o estilo de vida extremamente refinado de Bustopher, e esta última chega mesmo a fazer um comentário deselegante ao seu peso – o que lhe valeu um olhar repreendedor das outras duas gatas. Jennyanydots nota-se que tem uma paixoneta pelo gato do monóculo, que lhe parece retribuir o mesmo carinho quando esta canta.

 

Bustopher mete mãos à obra e põe-se a inspeccionar criticamente cada pedacinho da lixeira e os gatos que por ali andam... para verificar se estes se encontram dentro dos seus standards. Quando uma cartola preta é trazida para que o gato anafado se sente, ele olha-a de uma maneira desconfortável, manda Skimbleshanks limpá-la melhor e finalmente senta-se. Do seu palanque, ele fala aos toms que se reuniram à sua volta para receber conselhos de como um dia virem a ser um gato da sua categoria. Eles bebem cada uma das suas palavras com tal avidez que até faz lembrar a dedicação que as queens têm para com Rum Tum Tugger. Uma vez em fila para aprovação, os toms que a recebem regojizam de alegria enquanto os outros ficam bastante desanimados... mas enfim! Nota-se bem que alguns deles ainda estão muito verdes para tal honra... embora ao espectador mais atento estes “desaprovados” são sinceramente de uma hilariedade tal que podem levar qualquer um às lágrimas.

Mas nem tudo são rosas e repouso na vida dos gatos Jelicais. De repente as luzes baixam... os gatos dão um salto e cheiram o ar... Quando um grande estrondo soa, Demeter solta um guincho... “Macavity?!” e sirenes são ouvidas. Os gatos assustam-se e abandonam o palco...

Quem se esconde por detrás da escuridão?


1 “Bustopher Jones não é apenas carne e ossos, na verdade ele é extremamente gordo”

sonhado por zia às 00:01
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